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Prólogo de Singular - Thati Machado



Era uma quinta-feira ensolarada quando Nayara, minha colega de faculdade, me convidou para dar uma volta pela cidade. Nay e eu éramos amigos desde o primeiro dia de aula. Havíamos nos conhecido de um jeito, no mínimo, clichê. Eu estava focado em um jogo no celular, e ela, em um romance. Trombamos, e tenho certeza de que estávamos prestes a gritar, mas, contrariando todas as expectativas, apenas sorrimos. Mais tarde descobrimos que não só estávamos no mesmo curso, como também dividíamos algumas matérias. A amizade veio de forma natural a partir daí. E como ela havia salvado a minha pele no último trabalho, recusar o seu convite não era uma opção. Até que dar uma caminhada seria bom. Eu precisava ocupar a minha mente para não ficar pensando tanto na Nina e na minha recente declaração de amor desastrosa. Pois é, a namorada do meu irmão vem mexendo com a minha cabeça mais do que gosto de admitir, mas acredito que se trata apenas de uma confusão e que em algum momento me darei conta disso (assim espero!). Nina foi capaz de me enxergar por trás do rótulo de homem trans, que nada mais é do que uma abreviação de “homem transgênero”, e talvez fosse apenas por isso que eu estivesse tão encantado por ela. Encontrei-me com a Nay, e a nossa primeira parada foi em uma sorveteria. Conversamos sobre a faculdade, amigos em comum e outras trivialidades. Assim que nossos sorvetes acabaram, sugeri sairmos para dar uma volta, sem nenhum destino certo. Foi bem legal, e nós tivemos a oportunidade de conversar um pouco mais. Evitei falar da Nina ou da Marcela, pois sabia que ela já estava de saco cheio de tanto que eu falava das duas. Não podia culpá-la. 12 THATI MACHADO Há boatos de que Nayara já teve uma queda por mim no primeiro semestre da faculdade. Tornamo-nos colegas e nunca tive certeza disso. Pela forma como vinha agindo, no entanto, algo me dizia que eu estava prestes a descobrir. Ela passava tempo demais encarando meus lábios e o modo como sorria para mim parecia haver mudado: era mais intensa, eu diria. Já passava das duas da tarde quando resolvi acompanhá-la até seu prédio. Paramos na portaria e nos despedimos com um abraço. Em seguida, beijei sua bochecha direita, e meio segundo depois seus lábios estavam nos meus. Fui pego de surpresa, mas não me afastei. Permiti-me sentir a delicadeza de sua boca, que se abria pronta para abocanhar a minha. Beijamo-nos. Não sei dizer exatamente por quanto tempo, mas foi bom e sinto que não deveria ter acabado. — Gostaria de subir? — ela perguntou em um sussurro, seus lábios mal desgrudando dos meus. — Meus pais não estão em casa... — comentou com um sorriso, ainda de olhos fechados. — Adoraria — respondi sincero. Ao que tudo indicava, Nayara realmente tinha uma queda por mim. E, bom, ela é bonita, inteligente, engraçada, companheira... Por que não ter uma queda por ela também? Se isso me ajudasse a tirar a Nina dos meus pensamentos, melhor ainda. Eu não estava usando-a deliberadamente, mas nós dois já éramos grandinhos o suficiente para uma transa sem compromisso, não é mesmo? Adentramos seu apartamento e não houve tempo de irmos para o seu quarto. Eu estava sedento por tocá-la e assim o fiz. Empurrei-a até a mesa, perto da porta por onde havíamos entrado. Ela se apoiou na tampa, me acomodando entre suas pernas, que rapidamente enlaçaram a minha cintura. Tratei de arrancar sua blusa e dar a ela um destino bem longe de nós. Pretendia arrancar seu sutiã também, mas, para minha surpresa — e sorte! —, Nayara não usava um. Mas antes que nos envolvêssemos mais, sabia que tinha de contar algo a ela... Sempre havíamos sido sinceros um com o outro. Ou quase. Por isso, tinha de falar antes que... — Merda — sussurrei, sem pensar. Eu estava tentando tomar decisões sérias, e o que Nayara estava fazendo? Dificultando as coisas para o meu lado, é claro. Não sei em que momento ela conseguiu se afastar de mim o suficiente para tirar a roupa... A roupa toda, devo ressaltar. Ela encontrava-se nua bem ali, diante dos meus olhos, muito, muito sensual... Como recusar aquele ar de desejo? Caramba, por onde andava minha amiga que ficava de bochechas coradas quando eu falava da minha vida amorosa/sexual? A jovem que vivia sonhando acordada com os romances 13 melosos da literatura?! Droga, eu estava tocando sua intimidade e nem sei como chegamos a esse ponto! — Mais rápido — ela pediu, com os lábios colados aos meus. Já vivi tempo suficiente para saber que não se recusa um pedido de uma mulher. Menos ainda nessas condições. Seria estúpido e suicida da minha parte. Então, atendi aos seus desejos. Toquei-a com mais intensidade e agilidade. Seus gemidos embalavam a ocasião e me motivavam a fazer mais, a fazer melhor, a esquecer o que poderia destruir aquele momento. Eu a beijei, toquei, acolhi em meus braços até o ápice chegar. E ele chegou de forma violenta, acompanhado de espasmos e suspiros. Foi gratificante. Quando seus olhos cansados me fitaram de um jeito avassalador, eu soube que precisava refreá-la por um momento. Tempo suficiente para dizer a verdade. O desfecho daquela cena não dependia de mim. Eu odiava essa parte em que precisava revelar detalhes a respeito da minha transição. Uma transa, por mais casual que fosse, nunca era uma experiência tranquila para mim. O medo da rejeição ainda era latente e sufocante. — Nay... Antes de continuarmos, você precisa saber de uma coisa. — Teremos tempo para conversas depois... — retrucou, com um sorriso safado, já abrindo o zíper da minha calça. Pousei minha mão sobre a sua, impedindo-a de seguir em frente. Seus olhos se voltaram para mim, confusos. — O que há de errado? — Não há nada de errado, Nay — expliquei calmamente. Em pensamento, completei: “não sou um erro, não há nada de errado, nada mesmo”. O coração estava descompassado, em expectativa. — Eu não imaginei que fôssemos chegar a esse ponto hoje. — Engoli em seco. — Antes de continuarmos, você precisa saber que sou diferente. — Diferente? — sua voz, agora embargada, questionou. A expressão de êxtase e prazer abandonou seu rosto. Nayara parecia apenas apreensiva. — Eu sou um homem. Trans... — complementei, por fim, as palavras finalmente sendo ditas. — Um homem transgênero, Nay — concluí, de forma séria. Nayara não se importou com esse detalhe e nós continuamos exatamente de onde paramos. Durante as horas seguintes fomos mãos, pés, toques, carícias, cumplicidade e prazer. Foi absolutamente incrível... Cochilamos nos braços um do outro no tapete da sala mesmo. Nossos corpos estavam moídos, e o quarto nunca pareceu tão distante. Mas estávamos satisfeitos. Completos.

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