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Prólogo de O Retrato da Condessa - M.S. Fayes


Vincent Kildare, o quinto Conde de Lilwith, era um homem charmoso à sua maneira e considerado um dos grandes libertinos do Beau Monde. As matronas da sociedade tentavam ardentemente, de todas as formas, agarrá-lo para suas filhas, devido à sua imensa fortuna e poderio de título. O condado de Lilwith era um dos mais antigos e respeitados de toda a Inglaterra. Estas mesmas mães casamenteiras, porém, ainda assim eram reticentes, já que a fama o precedia. Ele era um devasso contumaz e solteiro resoluto. A beleza que as donzelas viam nele, porém, tornava muito fácil esquecer estes pequenos deslizes e, ainda assim, aspirarem ao posto de condessa.

Ele acabara de adentrar o salão lotado de um dos famosos bailes de Lady Cecile, a Viscondessa Wiltshire, esposa de seu grande e único amigo verdadeiro, Lincoln Bursbank, o Visconde Wiltshire. Somente por questão de amizade ele se via frequentando este tipo de baile, cujo calor insuportável, misturado às fofocas da alta sociedade londrina, tornava a noite um martírio. Ainda mais depois da tarde agitada em meio às mesas de carteado no Clube St. James.

Avistando o amigo, Kildare se esforçou para não afrouxar o laço tão perfeito de sua gravata. Definitivamente o calor o estava deixando mais irritado do que o normal. O salão estava abafadiço. Os odores de perfumes femininos se misturavam ao cheiro das velas dos candelabros. Os sons reverberavam em sua cabeça de maneira alucinante.

— Kildare! Imaginei que fosse receber uma desculpa esfarrapada vinda de você para não nos agraciar com sua presença esta noite! — disse zombeteiramente seu amigo.

— Nem me fale que eu poderia ter usado este recurso em prol de minha sanidade, caro amigo. Estou suando em bicas e não acredito que este perfume adocicado no ar esteja fazendo bem aos meus pulmões — resmungou o empertigado Conde.

— Ora! Deixe de besteira. As moçoilas estão ansiosas esperando que você as tire para dançar. Por falar nisso, quem será a escolhida de hoje, se posso me atrever a perguntar...? — O tom de Lincoln era de curiosidade pura. Afinal ele estava louco para ver Vincent fisgado.

— Particularmente ninguém — respondeu com amargura. — Nenhuma dessas criaturas descerebradas me atrai mais do que uma bela cama onde eu poderia repousar nesse exato momento, e me livrar dessa maldita dor de cabeça — Vincent disse isso massageando as têmporas. Sua cabeça parecia prestes a estourar. — Claro que se eu tivesse bebido um pouco menos no clube, muito provavelmente essa não seria minha queixa — acrescentou com um sorriso zombeteiro.

— Ora! Não por isso. Se sua cabeça está assim tão incômoda, então por que não se retira um pouco para um dos quartos de hóspedes? Tenho certeza que consigo contornar bem a situação — Lincoln disse olhando ao redor em busca de sua esposa. — Direi à Cecile que você estará de volta dentro de alguns minutos — informou solícito.

— Eu nem diria que minha cabeça esteja incomodando. Talvez não mais que meu estado de embriaguez parcial — Vincent admitiu, abrindo o nó da gravata. — Sei que não deveria, mas nossa amizade antiga me permite o luxo de aceitar sua tão generosa oferta, caro amigo. Realmente estou a ponto de explodir. Acho até que poderia afetar minha reputação, mas meu cérebro se recusa a cooperar. — Kildare passou as mãos pelo cabelo suado. — Sou apenas eu, ou o calor está infernal?

Seu amigo só pôde rir. Kildare tinha mania de levar tudo ao extremo da palavra. Estava sim, um clima abafadiço, mas não o suficiente para aquele mal-estar todo.

— Suba a escada e siga o corredor, Kildare. O segundo quarto está com a chave na fechadura. Não se esqueça de trancar a porta quando entrar, se quiser resguardar seu estado de solteirice. — Lincoln riu diante da carranca que Kildare fez. — Nunca se sabe se uma mãe mais ousada poderia armar um pequeno flagra pra você, não é mesmo? Sinta-se à vontade — ele disse e saiu, deixando Kildare a sós com seus pensamentos e cansaço extremo.

Kildare saiu discretamente do salão abarrotado sem se incomodar com os olhares furtivos que recebia. Tentou o melhor que pôde disfarçar alguns passos trôpegos, enquanto se dirigia à escadaria. A dor entre seus olhos era insuportável.

Subindo as escadas, reparou nas fotos de todos os antepassados de seu amigo Lincoln. Realmente seu amigo puxara os traços do avô, pensou, com um sorriso. O último quadro da sequência contava com uma pintura peculiar. Uma jovem donzela correndo ao vento num parque até então desconhecido. Kildare não entendeu o porquê de aquele quadro em particular ter lhe chamado a atenção, salvo pelo fato de estar torto na parede, cujo destino era ser corretamente endireitado pelas mãos de Vincent Kildare.

Perguntando-se por que aquele bendito quadro fazia parte do acervo familiar de Lincoln, ele finalmente girou a chave da porta do quarto e entrou em seu refúgio. Não sem antes esquecer-se de trancar bem a porta.

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